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sábado, 28 de fevereiro de 2009

intertolos

porque andam para aí a dizer que a intertoto é uma porcaria e que o facto de o braga a ter conquistado nada significa, vale a pena lembrar alguns dos clubes a quem o braga sucede na conquista do troféu.

estugarda, alemanha (2000, 2002)
hamburgo, alemanha (2005, 2007)
juventus, itália (1999)
lyon, frança (1997)
marselha, frança (2005)
newcastle (2006)
paris st-germain, frança (2001)
shalke 04, alemanha (2003, 2004)
valência, espanha (1998)
villareal, espanha (2003, 2004)
werder bremen, alemanha (1998)

sim, o troféu não tem grande importância, mas a verdade é que ao ganhá-lo, o braga junta-se a um grupo de ilustres equipas. para não falar do óbvio, claro: a intertoto até pode ser a quarta competição a nível europeu, mas até agora o braga foi o único não-grande português a vencê-la e, além disso, a vencer uma competição europeia.


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eles dizem #6

porque será que desejo
aquilo que não preciso?
por que a alma um fogo tem,
quente, abstracta cobiça,
que só busca o mais além?

porquê, senão p'la razão
da alma só alma ser?
quando em seu todo ocultada,
quem pode a causa saber
em (suas) leis disfarçada?

mas isto não interessa.
o que importa é sofrer
e a tensão que provém
de o pensar já predizer
que o que se quer não se tem


fernando pessoa


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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

friday night live #8

esta semana voltamos às novidades e dedicamos o espaço ao novo álbum da menina neko case. sai na próxima terça-feira e chama-se middle cyclone; a música que vos deixo também.



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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

clara



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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

.7

aconteceu num tempo que deixou de passar, num presente que congelou no mar picado pelo sol. o sol já caía para a noite e o azul começava a ver-se vermelho, laranja e roxo. houve mãos dadas e palavras de coragem, arrepios e suspiros; os primeiros de medo, os segundos de impaciência. ele tentava afogar-se numa areia que desejava movediça, ela desesperava para que ele, pelo menos, molhasse os pés. 

depois dos calcanhares, os tornozelos, os joelhos e as ancas. assim, num ápice, tinha já a água pelo peito e os pulmões em choque. o mar enrolava tranquilo, o vento assobiava em paz, ela boiava serena e ele, prestes a desfalecer, agoniava ao sentir o coração em vertiginosa contagem decrescente.

"memória fotográfica", diz ele hoje em dia. "é que depois disso não me lembro de mais nada, como se o meu coração tivesse parado mesmo e ressuscitado já na praia. a minha memória seguinte é a da vontade de guardar a areia nos bolsos e a água nos olhos, quando acordei no areal. foi como se tivesse vivido o paraíso e, apesar de não o recordar, não querer perder essas memórias. por essa razão, nunca mais consegui chorar".


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as insónias de óscar

faz favor de avisar o adrien brody que os oscares são uma festa de glamour e assim, porque nem um armani nem um gucci conseguem disfarçar aquela pêra e aquele penteado.

e já agora, da próxima vez que entregarem um oscar para melhor actriz, se calhar é melhor ter a certeza de que ela sabe fingir chorar, porque o discurso da kate winslet foi manhosinho a mais.

ah, e raisparta o slumdog!


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domingo, 22 de fevereiro de 2009

aos vinte e três anos já não faço planos

mas hoje vou ver os óscares com os meus irmãos, na que será a primeira vez que vou ficar acordado para ver um espectáculo que não me diz grande coisa. fizemos as apostas, mesmo às cegas, e agora quem perder paga. em doçaria, claro!


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sábado, 21 de fevereiro de 2009

o vad faz hoje cinco anos

muito obrigado.


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posts do antigamente #54

.16
a beleza não está nas pequenas coisas; nunca caberia lá.


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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

friday night live #7

esta semana, porque temos óscares e carnaval, deixo-vos com os the delano orchestra que cantam no vad a primeira parte da between day & night.



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posts do antigamente #53

já que o amanhã é só daqui a algum tempo
Podia contar cada segundo que passa e perder-me no tempo enquanto me desculpo por aquilo que não fiz. Um 'desculpa' por segundo e desculpas tão ilógicas que envergonham os ponteiros de todos os relógios; que gelam o tempo e as têmporas de toda a gente. Ninguém quer ouvir desculpas, porque elas são, inevitavelmente, mentiras. Como há muito tempo se vai dizendo, só nos devemos arrepender do que não fizemos. E é por isso que pedir desculpa por coisas de que não nos arrependemos é hipócrita. Mas podemos sempre contornar a rotunda da hipocrisia e virar em direcção à cidade que está mais longe, contornando a rotunda vezes e vezes, olhando para todas as placas e conferindo no mapa se as distâncias indicadas são reais. E as voltas que damos e nos elucidam são as mesmas voltas que baralham os outros; aqueles que nunca mais veremos.


escrito por joão martinho | | comentar




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

o vídeo do casamento dela

quando vi o cartaz de o "casamento de rachel", pensei imediatamente que este seria um filme a evitar. em boa hora, porém, li a excelente reportagem publicada num ipsilon de há um par de semanas e decidi dar-lhe uma oportunidade.

"o casamento de rachel" é um filme ternurento. as lágrimas caem ao som da mesma música que os sorrisos se rasgam; parece uma perfeita encenação da vida com a câmara em punho e as luzes teatrais que ora iluminam ora ensombram cada personagem.

a história vale por si e encontra-nos quando já vai muito para além do meio. uma família destroçada a fazer lembrar o love will tear us apart, com uma mãe egoísta e ausente, um pai que tenta esquecer e duas irmãs que são a antítese uma da outra; uma encarnação da perfeição prestes a ser mãe e a casar, a outra encarnação da destruição que sai por uns dias da clínica de reabilitação para participar no casamento da irmã.

é um filme sobre a família e sobre o que ela representa. ainda que destroçada, uma família é sempre uma família. e quando uma família se reúne, apesar de os cacos ficarem sempre mal colados, sobressai sempre a tranquilidade e a esperança de que tudo vai ficar bem, ainda que apenas num tempo fotográfico.

não é o melhor filme do ano, mas é um dos mais bem escritos, mais bem filmados e com melhor banda sonora. não é um grande filme só porque é um retrato do quotidiano e o quotidiano nunca é épico, mesmo que seja o quotidiano de uma família de fusão num fim-de-semana com banda sonora.

não é o melhor filme do ano mas ainda bem, sabe muito melhor assim.


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posts do antigamente #52

.64
encontrou-a na rua e fugiu; sentou-se, abraçando as pernas, num banco logo depois da esquina à esquerda; roeu as unhas e chegou à conclusão de que estava era a ser parvo. levantou-se decidido, tirou o lenço do bolso das calças amarrotadas e guardou-o, bem dobradinho, no bolso do casaco. ao chegar junto dela, desdobrou cuidadosamente o lento e cobriu-a, como se o lenço chegasse para limpar todas as lágrimas que já estavam há muito secas. pegou nela com cuidado e levou-a para casa. enterrou-a no quintal, junto à macieira que plantara no dia anterior. que sim, meia dúzia de anos mais tarde deu frutos. o amor também é isso.


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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

se isto é uma equipa



ricardo silva


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posts do antigamente #51

.94
de relógio na mão, tentei provar que o tempo passa mais rápido de olhos fechados. no início da experiência os tique-taques duravam tanto como de olhos abertos, mas de repente - aí pelo segundo quadragésimo terceiro - pareceu-me que os tiques se começavam a colar aos taques e quando dei por mim já tinha perdido a conta ao tempo, deitado no ponteiro dos segundos e ele, às voltas nas horas, parecia apostado em atirar-me ao chão.

há sonhos, pesadelos, não-sonhos e sonos tão pesados que parecem colar-nos as pálpebras. eu nunca fui grande sonhador e sempre evitei os filmes de terror para não ter pesadelos. até hoje pensava que simplesmente não sonhava a dormir porque já passava tempo demais a sonhar acordado, mas hoje o despertador não tocou e fui despedido por chegar tarde ao trabalho.

hoje era um bom dia para andar numa montanha russa e atirar ovos da roda gigante.


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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

eles dizem #5

parece-me que se quebrar as rotinas nunca mais a volto a ver.

(...)

as pessoas não desaparecem no ar... mais tarde ou mais cedo ela vai passar pelas mesmas ruas e eu vou estar lá. que é que queres que faça? não posso desistir, não é?


marco martins, alice


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posts do antigamente #50

.83
o meu alter-ego é um tipo que adormece à espera das seis e sessenta e seis da manha; é um tipo ingénuo que se deixa sempre enganar pelo sono e desperta já depois das sete. e a máquina fotográfica, com muitas fotografias acidentais, não encontra nunca - mesmo em desfocado ou descentrado - os números da moda em vermelho sobre preto. é, acima de tudo, um tipo verdadeiro e puro, e é por isso que se recusa a procurar manualmente os números no despertador.

ouve, uma vez até se lembrou de programar o despertador para pouco antes da hora, mas viu que o mais perto que conseguia era um minuto antes das seis. acreditou que era um sinal - um para as seis e ficava a seis das seis e sessenta e seis - e por isso desistiu da ideia.

nunca ninguém o conheceu e ainda bem; ainda o confundiam comigo e começavam a dizer que eu sou paranóico e obstinado com coisas parvas - quer dizer, isso ainda vá que não vá, porque a verdade é para se dizer. mas bem, a verdade é outra: pessoas tem sempre alter-egos fantásticos e incríveis e o meu é ainda mais estranho que eu. e eu, que sempre tive medo que dissessem que eu sou um gajo estranho, acabei por matá-lo sem ninguém saber. não foi difícil, porque ninguém sabia que ele existia. ainda assim, é melhor não darmos muito nas vistas e falar dele como se ele ainda adormecesse à espera das seis e sessenta e seis, ok?


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preto sobre branco



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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

eles dizem #4

ven conmigo a mi casa, la noche da miedo.
es la boca de un lobo, hay luna nueva, ¿no lo ves?

donde vuela el cuervo, en esa calle vivo.
donde hay luces, hay sombras, que no salga el sol.
en tus manos frías, yerbas del balcón.
y un barco en la botella, así me siento yo.

y ya te tengo en medio de la habitación.
parece un sueño, te doy el pellizco yo.
van hacia el techo burbujas
de vinos que no son de la tierra.

tú y yo en el mar de la tranquilidad.
y otra vez a brindar,
qué me gusta a mí estar
en el mar de la tranquilidad junto a ti.

¡llega la luz del día tan rápidamente!
es un cuadro espantoso de palomas de la paz.

que sin nosotros vuelan, no las quiero ver.
con la persiana hasta abajo, así estaremos bien.
en tus manos frías, yerbas del balcón
y algunas cartas marcadas de navegación.

y ya te tengo en medio de la habitación.
parece un sueño, te doy el pellizco yo.
estás para quitar el hipo.
¡es tan tonto mi truco de los sustos!

es nuestro el mar de la tranquilidad.
y otra vez a brindar,
vamos a alucinar
en el mar de la tranquilidad.

sr. chinarro - el mar de la tranquilidad


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.6

há dias em que os pardais parecem querer ensinar-me a assobiar. também eles assobiam o sol quente e o céu azul, tantas vezes junto à minha janela de sétimo andar.


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posts do antigamente #49

carta tardia
Esperava-te na estação, como havíamos combinado. As minhas mãos suavam leves tremores de emoção e seguravam um malmequer com as pétalas bem contadas.

Entrei no comboio já ele andava, como se tentasse fugir às nossas juras falsas de amor. Com a porta da última carruagem aberta, segurava-me para ver se tu chegavas. Mas tu não chegaste e eu desisti. Sentei-me no teu lugar, junto à janela, e ocupei o banco do lado, o meu, com os jornais, cadernos e restante papelada.

Comecei a viagem com vontade de encher cada espaço em branco de cada bocado de papel que tinha - até do bilhete -, com mensagens para ti. Comecei a escrever-te uma carta de mágoas que demorou dez páginas, mas a lágrima que molhou a palavra 'saudade' - que escrevi na última linha da última página -, obrigou-me a rasgá-la.

Depois, umas estações mais à frente, entrou a Julie, que se sentou no banco em frente ao meu, de frente para mim. Sabes como é que eu sou: demorei quase duas horas para decidir o que lhe havia de dizer, e quando o fiz, disse asneira. O que vale é que ela se riu e disse que a chuva não cai do céu para morrer na cara de quem não a merece. Saímos na estação seguinte e beijámo-nos à chuva.

Passou quase um mês e eu nem me apercebi e até me esqueci que tinha coisas para ti. Espero que esta carta te encontre bem e feliz. Junto envio um recorte de dicionário que pensei que talvez te fosse útil. Se nos faltou 'espontaneidade', agradeço-te o teres reproduzido apenas mais um cliché na nossa relação. Hoje sou feliz por me teres feito infeliz. E como disse o revisor: 'Pois é, é a vida'.


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eles dizem #3

o filho da moderna civilização europeia tratará os problemas da história universal tendo em conta, inevitável e legitimamente, a seguinte questão: que encadeamento particular de circunstâncias levou a que no ocidente e só aqui, tenham aparecido fenómenos culturais que - pelo menos como gostamos de pensar - se situaram numa direcção evolutiva de significado e valor universais.

max weber


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domingo, 15 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #48

.48
Estendeu-lhe um papel amarelo e corou. Disse-lhe que era para ela e que tinha escrito para ela e que gostava dela. E disse-o tudo muito rápido, para não gaguejar e engoliu palavras e voltou a corar, desta vez ainda mais do que na primeira vez. E então, ela olhou para o papel e como não percebia o que dizia, o olhar dela começou a piscar intermitentemente entre ele o papel. E ele, corado e envergonhado, não conseguia desmistificar a mensagem, aparentemente, pouco inteligível. E ela continuava a dividir o olhar entre ele e a folha amarela, à procura de respostas. E aos poucos, mas muito devagarinho - tão devagarinho, como uma folha a cair num dia de Outono pouco vento -, as letras desordenadas - maiúsculas e minúsculas -, desenhadas ou recortadas de revistas, começavam a ordenar-se na testa dele. E ela nada disse, sorriu apenas como nunca tinha sorrido e beijou-o. Aquela era, afinal, a mais bonita de todas as declarações de amor. Porque ele gostava muito dela e ela encontrou, algures no meio das letras perdidas, as razões que queria ter para se apaixonar. E foi assim que começou a estória de amor deles. Pelo que me disseram ainda estão juntos e vivem felizes. E nunca pararam para pensar porque é que gostam um do outro. E porque é que ela racionalmente encontrou a irracionalidade de que precisava para se apaixonar por ele, que irracionalmente insistia que a escolhera racionalmente, porque conseguia contar os defeitos dela com os dedos das mãos e porque ela era a mulher da vida dele. E porque dois faz sempre muito mais sentido que um. E porque todos os dias segredam um ao outro os mesmos versos de um poema que escreveram poucos dias depois daquele dia: porque estar apaixonado nada me diz/só sei que acordo e penso em ti/e se tudo não passa de um sonho,/não me acordes, e diz a todos que já morri.


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sábado, 14 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #47

.73
Só o tempo de acender um cigarro e as mãos voltam ao fundo dos bolsos do sobretudo. Caminha lentamente, o indigente, e segura o cigarro no canto da boca. Tom gosta de caminhar no cais; gosta de sentir o cheiro a sujo do mar que odeia. Senta-se num qualquer banco e espera que lhe chova na cabeça. Quando chove no cais, a sujidade - lavada pela água -, torna-se ainda mais evidente. E no mar, as pequenas gotas insistem em chover no molhado. Quando a chuva pára, Tom acende um cigarro, levanta-se e leva as mãos aos bolsos. Regressa a casa com o cheiro a madeira molhada e um sol que aquece apenas o lugar onde esteve sentado. Acredita que a chuva lava a alma e que tudo o que perde a cada bátega, fica ali, naquele bocado de pedra seca; o único em todo o cais.


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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

friday night live #6

porque estes dias têm sido bonitos, deixo-vos uma música que não o é menos. born heller cantam good times no lugar do costume, ali no canto superior direito do blogue.



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posts do antigamente #46

fica comigo até o mundo acabar; vai ser bonito, amor
na praia era o vento a soprar-te para longe de mim e eu a soprar-lhe para ir embora, porque um dia sonhei que o mundo acabava assim: nós e areia branca; o céu azul de verão onde - por entre as estrelas -, o sol e a lua coreografavam jogos de luzes. era o mar, também.

e o mar secava nas ondas e depois era só sal, da cor da areia. corríamos no sal, ao sol, e a lua mandava chover, só para nos embalar nas ondas. o mar voltava a ser mar e nós íamos até ao fundo, ao fundo do mar. lá estavas tu e o nosso primeiro beijo, a nossa primeira manhã e a nossa primeira lua cheia.

mas o sol, com ciúmes, entrava mar adentro e levava-te no coração. eu chorava todas as luas e não parava de olhar para ti até que um dia, de tanto soprar, o vento empurrava a lua contra o sol e o mundo voltava a nascer. éramos nós e o amor e o vento, mas era também o sol e a lua que faziam as pazes e juras de nunca mais se deitarem um sem o outro; nascia outro mundo e eu ainda gostava mais de ti.


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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

.5

e quem disse que a primavera chega com as andorinhas ou com as flores?
a primavera chega no quente-frio do sol no rosto e das mãos geladas.
a primavera chega com os sorrisos cansados da chuva, com os sorrisos instantaneamente vermelhos-cereja.
a primavera chega com o reencontro das coisas consigo próprias, chega com as sombras no claro-escuro dos passeios a pé.


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posts do antigamente #45

Insónia II
Vi-te entrar, esperava que me dissesses o que desejavas, enquanto me servias um chocolate quente. Nunca o havias feito. Eu escrevia a história da nossa vida, vista noutras pessoas; a história que nos queria ver viver; a história que nunca vivemos. O vento, lá fora, soprava frio. Ouvia-se o tremer gélido do plátano, no jardim. Não me disseste nada. Beijaste-me simplesmente e saíste.

Enquanto aquecia as mãos na chávena, pensava em ti e em como nos conhecemos. Olhei para o papel - para aquela minha letra esquisita, como lhe chamas - e sorri. Afinal a história era a nossa; contada não por mim - aquele que te ama - por outro. Por isso, apaguei o candeeiro, levantei-me e caminhei em direcção ao quarto, onde a minha respiração entrou em sintonia com a tua.


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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

paredes meias com os mundos dos outros



adam simpson


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posts do antigamente #44

.46
Porque às vezes nos perdemos na insignificância de meia dúzia de palavras soltas, gritadas aos ventos que sopram mais rápido. E porque apesar de tudo, cada sílaba que assobio, insiste em ser insuficiente ou soar um tanto ou quanto incongruente. E ainda assim, depois de todos os não-ditos somados e os projectos de sonhos frustrados, duas mãos cheias de palavras doces que juntei para ti, derretem-se-me na boca, depois de um beijo teu. E são essas as palavras que desenho no teu sonho, letra-a-letra, todos os dias, como se o sol fosse as ondas do mar e as letras que desenho fossem desenhadas na areia.


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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

cento e uma coisas para fazer em mil e um dias

há um ano e tal, a joana escreveu uma lista de cento e uma coisas para fazer em mil e um dias, depois de ter lido a lista da ana dedicada ao mesmo.

um ano e tal depois, eu decidi escrever a minha lista de cento e uma coisas para fazer nos próximos mil e um dias, que é como que diz: até 8 de novembro de 2011. veremos como é que me safo.


escrito por joão martinho | | comentar




.4

era o ontem de um dia destes; um passado demasiado recente e memórias sombras, memórias fantasmas, memórias pesadelos.
era eu num dia destes sem saber se sonhara, se criara, se moldara; era eu sem saber de mim, sem me encontrar no meu passado.
era eu à minha procura num destes dias; era eu a esperar por ti.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #43

num dia de chuva, um sonho
Harry e Bridget conheceram-se num dia de chuva. Caminhavam em sentido contrário, numa recta com cerca de 300 metros; eram os únicos. Harry tinha um guarda-chuva azul grande, Bridget tinha nada que a protegesse da chuva, que caía com muita intensidade. Quando se cruzaram, o olhar tímido de Bridget encantou Harry, que, dando meia-volta, abrigou Bridget e disse: “Olá! Chamo-me Harry. Pensei que podíamos tomar um café.”. Bridget, corando, sorriu e aceitou o convite.

Harry levou-a ao seu café favorito. Por causa disso, ainda se molharam bastante – o café ficava a 10 minutos do local onde se conheceram. Mas valeu a pena. O chocolate quente é o melhor da cidade. E as cores vivas das paredes, os quadros inspirados em Dalí, as almofadas e as mesas baixinhas faziam esquecer o desconforto de estarem completamente encharcados.
A conversa fluiu de um forma espantosa. Bridget esquecera a timidez e comandava agora o rumo da conversa. Harry esboçava apenas um sorriso derretido.

Bridget contou a Harry tudo sobre a sua paixão por antropologia. Sobre o sonho da investigação; da descoberta da liberdade e da felicidade, que acreditava existir lá longe, num lugar onde a civilização é mais pura. Citava frequentemente escritores intemporais, nos quais baseava os seus sonhos e crenças. Harry, estudante de Biologia, imaginava-se no mar. Queria ser biólogo marinho. Do alto da sua lógica científica, as ideias empíricas de Bridget, soavam-lhe a delírios. Por outro lado, não conseguia esconder o fascínio que sentia ao ouvir alguém que o encantava, a motivá-lo para descobrir o sonho.

Harry estava já apaixonado. Ouvia Bridget como se esta falasse a cantar Isobel Campbell. Tinham passado várias horas. Bridget pediu-lhe que fosse pedir um pouco mais de chá verde de laranja. Quando voltou, não havia sinal de Bridget, apenas um papel dobrado em quatro. Ansiosamente, Harry desdobrou-o e, imóvel, leu e releu incessantemente as palavras rabiscadas à pressa. Dizia: “Esperar-te-ei para sempre no meu sonho, enquanto ele também for teu”.

O chá, esse, jazia já no chão. Harry tinha-o deixado cair e estava perfeitamente paralisado por causa do choque. Quando recuperou a animosidade, apressou-se a pagar e saiu. Lembrava-se de Bridget lhe ter dito que adorava andar de comboio, por isso correu para a estação de caminhos de ferro. Enquanto isso, a chuva não abrandava. Pelo contrário, a cada passo de Harry ela parecia aumentar de intensidade.

Ao chegar lá, avistou Bridget, sentada num banco verde. Disse-lhe que a amava, que queria ir com ela para onde ela fosse, que queria ser também livre; feliz. Bridget sorriu. Levantou-se e convidou Harry a segui-la. Disse-lhe, enquanto caminhava: “Procuras tu a liberdade que há pouco desprezavas e a felicidade que pensavas conhecer. Dizias que era irracional, mas seguiste-me. Pois bem, a liberdade e a felicidade esperam-te. Fizeste o necessário para a merecer; seguiste o teu sonho – ainda que inconscientemente. Eu não sou mais do que um sonho teu, e o meu sonho foste tu que o sonhaste”. Sorriu como da primeira vez e desapareceu por entre o nevoeiro.


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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

o meu woody allen preferido

vicky cristina barcelona é um bom filme e até se tornou o meu woody allen preferido, apesar de ter provocado a queda definitiva da scarlett johansson do meu top de meninas bonitas do cinema - não ouvi o álbum dela a cantar tom waits nem pretendo ouvir; não sou dos que gostam de mulheres com voz rouca, prefiro mulheres com voz de mulher. aliás, não há como resistir a uma mulher com voz de mulher, já às mulheres com voz de homem e voz rouca, pronto. mas enfim, não é este o tema deste post, por isso adiante.

muito se especulava acerca de como filmaria woody allen barcelona, depois de ter filmado nova iorque tão bonita e verdadeira (?). no meu ponto de vista, falha redondamente, até porque de barcelona pouco vemos. vemos o aeroporto algumas vezes (esse não-lugar, para os fãs do marc augé), uns bocadinhos do raval e meia dúzia de pontos turísticos relevantes, para além de muitos pedaços incaracterísticos, como esplanadas e restaurantes. o parque guell, por exemplo, surge no filme numa cena que chega a incomodar, de soar tão óbvio que a cena foi filmada lá porque um filme sobre barcelona sem o parque guell não pode ser um filme sobre barcelona.

para além do espaço, as personagens principais de espanhóis, extraordinariamente representadas pelo javier bardem e pela penélope cruz, aparecem como emocionalmente instáveis, excêntricos e até - ou simplesmente, se preferirem - varridos da cabeça. impossível não pensar no etnocentrismo obrigatório aos trabalhos etnográficos, mas como isto é apenas um filme, não há mal nenhum em perpetuar o estereótipo dos sul-europeus.

feitas estas ressalvas e esquecendo que o filme é sobre barcelona, o filme é um bom filme e isso merece ser reconhecido. em primeiro lugar, a já referida enorme prestação dos actores espanhóis, que nos proporcionam as cenas mais deliciosas do filme: as discussões em castelhano - ah, que saudades de espanha!; em segundo lugar, a banda sonora do filme, que deixa a sensação de que seria mesmo perfeita num filme sobre barcelona; em terceiro lugar, o argumento que, apesar de tudo o que já foi dito acima, é uma estória engraçada, interessante e, apesar de extraordinariamente incrível, bastante verosímil; finalmente, a cena que o tornaria o melhor woody allen de sempre ainda que o filme fossem só esses cinco ou dez segundos: o beijo entre a penélope cruz e a scarlett johansson.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #42

.39
Jantávamos à mesa e depois saltávamos para o sofá e depois para o chão. E quando o ritmo da música abrandasse, eu dava-te a mão e olhava-te como se estivesse envergonhado. Depois, abraçava-te e dançávamos agarradinhos para sempre. Mesmo que o ritmo voltasse a acelerar.


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domingo, 8 de fevereiro de 2009

"o mal do futebol é que existem regras"

derlei, 8 de fevereiro de 2009


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posts do antigamente #41

mais nada para além do adeus
As bolas de sabão nunca morrem; desaparecem – dizia Alison a todas pessoas com quem falava. Ninguém acreditava nela. Alguns riam-se; outros ignoravam. Julgavam tratar-se apenas de fantasias próprias de uma criança de cinco anos.

Alison vivia numa aldeia de quarenta e sete habitantes. Era a única criança da aldeia e não tinha mais com quem brincar, além do cão da avó. Nunca tinha ido para infantários, e preparava-se para ir pela primeira vez à escola, na aldeia vizinha.

Um dia, no Verão, a avó levou-a à cidade mais próxima – onde costumava comprar os pães de leite, com que Alison se deliciava. Entre tudo o que viu, o que Alison mais gostou, foram os palhaços, que faziam balões com formas de flores e bolas de sabão do tamanho da lua. Ficou tão fascinada que a avó dela lhe comprou tudo o que precisava para as fazer. A partir daí, Alison todos os dias enchia uma bacia com sabão líquido e água, molhava o aro e fantasiava sobre as bolas de sabão que criava. Era incapaz de acreditar que algo tão belo pudesse morrer. Dizia que as coisas bonitas não morrem, vão para um lugar onde todas as coisas bonitas estão.

Alison acreditava que as bolas de sabão renasciam na alma, junto de todos aqueles de quem gostamos; junto do coração. Acreditava que, quando adormecêssemos para sempre, iríamos para a alma – um lugar onde só existem as coisas que nós gostamos; onde não há nada mau.

Acreditava que em vez de usar carros ou bicicletas, as pessoas usariam as bolas de sabão como meio de transporte. Acreditava que a alma de cada um, é o paraíso individual. Acreditava que, quando as coisas e pessoas das quais gostávamos mais, desapareciam, era porque elas estavam a preparar o nosso renascimento.

O paraíso de Alison era uma extensa planície coberta de flores de todas as cores, onde a alegria não necessitava da tristeza para existir. Desenhava-se junto dos pais; envolta numa bola de sabão ou deitada a olhar o céu. O paraíso de Alison era um lugar onde o sol e a lua tinham boca e nariz; onde as casas eram feitas de balões coloridos; os doces nasciam das árvores e as estrelas eram sorrisos.

Alison foi esquecendo todo esse sonho à medida que foi crescendo, que conheceu outros meninos e se tornou mulher. As bolas de sabão, essas, ficaram escondidas num qualquer canto das suas vagas recordações. Esqueceu-se de que a felicidade não é mais do que um saco cheio de sonhos. Não mais se lembrou de que a beleza não morre; desaparece.


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sábado, 7 de fevereiro de 2009

crepollock



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toponímia #1

rua nossa senhora da mão poderosa
formiga
ermesinde


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josé machado pais

para que aqui fique registado: ontem, ao ouvi-lo na universidade do minho, fiquei com a certeza de que ele é, de facto, o meu super-herói preferido das ciências sociais.


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bird #3

o noble beast é ainda mais perfeito nos dias em que as nuvens não são mais que sardas em céu azul.


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posts do antigamente #40

a vida é um exercício de exorcismo. dia sim, dia não.
Um fio de sangue avança lentamente até à porta. O cheiro a morte está ainda muito fresco e o vermelho, que mancha as paredes com formas de mãos arrastadas em desespero, é tão vivo como se o coração continuasse a bater.

O cenário: vinte e cinco metros quadrados de um escritório mal idealizado. Duas colunas de betão e uma parede completamente envidraçada. Num dos cantos, de mãos atrás das costas, alguém olha a rua atrás da grande janela. A espaços cada vez mais longos, pequenas pingas vermelhas caem gota-a-gota dos seus dedos. Não se mexe. Encostado a uma das colunas, à direita de quem entra, um rosto ensaguentado e duas mãos algemadas. A morte, abafada pela elevada pressão do contíguo espaço, tenta escapar por entre a nesga de espaço que ficou entre mim e a porta.

E como se explodisse em mim a vontade de morrer por ti, corria contra os vidros e voava contra o chão. Esperando que desta vez me ouvisses e me sentisses morrer ao teu lado, entregando-te o meu último suspiro.

E, para te perguntar se tinhas visto, subi a correr todas as escadas em espiral até ao escritório e abri a porta. Mas já lá não estavas. Tinhas passado por mim no corredor e eu nem notei. Só ao olhar o cigarro mal apagado no chão, me lembrei do cheiro a tabaco aromático da tua mão e de me teres afagado o rosto em jeito de despedida.

Enquanto te chorava à janela, no meio dos vidros partidos, segui-te com o olhar. E Enquanto desaparecias, no meio da madrugada, o meu coração batia nervosamente, apesar da ternura das tuas mãos.


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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

friday night live #5

esta semana, o inverno que já passou. fleet foxes cantam inverno branquinho no vosso canto superior direito, como que a desejar que a chuva congele e volte a cobrir de branco os parapeitos das nossas janelas. quem gostar da musicólia pode despachar-se a procurá-la no youtube, que o vídeo é também altamente recomendável.



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posts do antigamente #39

um aforismo para os que gostam dessas coisas
um escritor desinspirado é como um outono entre quatro paredes, só que as folhas não secam de amarrotadas nem existe vento que não sejam sopros de desespero.


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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #38

.90
disseram-me que ele se costumava atrasar muito e que um almoço com ele nunca acabava antes de depois da hora de jantar. disseram-me que ele gostava muito de falar e de comer, embora a sofreguidão de falar o fizesse, muitas vezes, abdicar de comer. nunca ligo muito ao que as pessoas dizem de outras pessoas porque as pessoas dizem verdades e mentiras - as pessoas só são verdadeiras quando falam de si; fingem é nas humildades e nas sobrancerias.

esforcei-me por chegar lá a horas e constatei que afinal as pessoas tinham razão quando falavam da sua falta de pontualidade; e eu que odeio esperar. para a espera, optei por um vinho barato com nome de caro, porque o dinheiro é pouco mas gosto de causar uma boa primeira impressão. claro que não foi fácil, já que ele demorou meia garrafa a chegar e eu já balanceava ao ritmo do estômago em jejum. fiquei nervoso por não conseguir controlar o meu corpo nem ter apetite para comer; ainda mais fiquei quando ele começou a falar. sempre tive problemas de concentração e não costumo demorar mais de dez minutos de conversa improfícua para começar pensar em nada. sempre que isto acontecia, entrava em pânico e tentava disfarçar toda esta ansiedade; espero que não tenha sido em vão. pedi a sobremesa sem ter tocado no primeiro prato e ele nem notou; fui à casa de banho lavar a cara com água fria e acho que ele continuou a falar.

gosto de sentir a água fria disparar-se contra a minha cara - costumo dizer-me 'acorda para a vida, pá!'. senti-me uma pessoa melhor e voltei para a mesa, onde o gelado de menta e chocolate começava a descongelar. melhor, gosto mais dos gelados quando já não estão tão gelados. gosto de chocolate e mentol e ao comer o gelado pensava que era mesmo disso que precisava: açúcar com fartura pela goela abaixo. peguei no guardanapo e rabisquei umas palavras, para ver se o corre-corre cerebral se acalmava um pouco. e resultou. o açúcar é o estimulante que melhor se dá com a minha actividade cerebral. funcionam tão bem que às vezes até dá faísca e trovão e muita chuva de coisas; o que eu costumo chamar de 'nada'.

nada é pouco menos de tudo o que eu percebi do que ele me disse. fala muito, de facto, e ainda não tinha passado dos aperitivos que até tinham muito bom aspecto, por sinal. tão bom aspecto que recuperei o meu apetite e pedi igual para mim - será que era por causa disto que as pessoas diziam que com ele o almoço engole o jantar? sorri ao pensar no 'vê se comes isso antes que fique frio, que depois não presta' que a minha mãe tantas vezes me dedicou e, aconselhado pelo empregado, pedi um entrecosto argentino - sim, como se precisasse da opinião dele para me inclinar para o entrecosto argentino!

era já de noite e eu almoçava ainda. sentia-me bem, ainda assim, porque ao fim ao cabo, ele ainda nem o tinha começado. nunca tinha conhecido ninguém com tanta vontade de falar e eu nunca tinha sentido tão pouca vontade de ouvir. senti-me uma má pessoa, mas continuei a comer - afinal era ele que pagava. senti-me outra vez uma má pessoa, afinal ele estava a pagar-me para o ouvir e eu nem isso conseguia dar-lhe - os meus ouvidos, absorvidos na orgia de sentidos que a comida me proporcionava. o restaurante é muito bom e fiquei com vontade de voltar lá em breve. ele ficou com vontade de repetir e convidou-me para almoçar com ele outra vez na semana seguinte. eu aceitei e desde aí que almoçamos juntos uma vez por semana.

aprendi a comer e a beber; especialmente beber - que descobri que é a sua grande especialidade. com o tempo, aprendi a ouvi-lo, também. meia dúzia de anos depois, morreu sozinho num hospital, depois de muitos meses sem saber que dia seria o último; sem poder desfrutar do fim. eu era a única pessoa que o visitava e um dia ele pediu-me para escrever a biografia dele, se algum dia viesse a ser famoso. nunca o foi, mas eu escrevi a biografia dele na mesma e publiquei-a. recebi muitos elogios e a crítica dizia toda que era o romance de uma vida extraordinária, apesar de eu insistir que era apenas uma biografia de alguém que gritou para ser ouvido, e foi sempre sufocado por pessoas ordinárias.

com o dinheiro que ganhei com o livro, todas as semanas vou almoçar com ele. ele continua a falar muito e eu todas as semanas o ouço melhor. a única diferença é que agora sou eu que pago.


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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #37

A felicidade não tem 500 palavras
Mark era toxicómano. Perdia-se por entre copos meio-cheios de whisky e pontas de charros esquecidas no sofá. Há muito que a sua vida deixara de ter sentido. Não conhecera o pai e a mãe não lhe merecia tal consideração. Crescera num bairro pobre dos subúrbios, no meio de histórias tão estranhas e deprimentes como a sua. Como quase todos os seus companheiros, Mark começou a fumar muito cedo; não se lembra sequer da idade que tinha na altura. Pouco depois experimentava o álcool e marijuana; começou a cheirar cola e gasolina. Abandonou a escola depois de aprender a ler e escrever. Dizia ele que o resto podia aprender sozinho; e assim o fez.

Arranjou um emprego precário num alfarrabista da cidade. A partir do pó recordou Camus, Wilde ou Tolstoi; a partir do pó começou a escrever os seus devaneios. A partir do pó dos livros aprendeu; a partir do pó que comprava no metro, tornou-se escritor.

Escrevia na rua, sobre a rua, para a rua. Sabia que era genial, mas do alto da sua insanidade, rasgava todos os pedaços de literatura que produzia. Escrevia para si, porque mais ninguém queria ler. Escrevia para si, porque era extraordinariamente brilhante para ser compreendido.

Um dia conheceu Jane, estudante de filologia clássica. Jane era a primeira pessoa que entrara no alfarrabista, desde que Mark começara a trabalhar lá – já haviam passado dois anos. Mr. Gibson não parecia importar-se muito com o prejuízo que a sua loja – localizada na cave de umas velhas e abandonadas galerias – lhe dava. Era herdeiro da fortuna de um grande mecenas, ao qual prometera disponibilizar à comunidade, a sua vasta biblioteca.

Jane estudava na Faculdade de Ciências Humanas, que ficava a dois quarteirões da loja de Mr. Gibson. Todos os dias, no caminho para a faculdade, Jane passava pelas galerias, sempre sem notar que se tratava de um espaço comercial. Por mero acaso, uma dia – quando passava por lá – ficou intrigada com o vulto de Mark, que viu carregando uma obra, que julgava inédita, de Sofócles. Decidiu segui-lo.

Mark era anti-social. Não tinha amigos e nunca tinha tido uma namorada. Ao ver Jane, entrar na loja, Mark corou, fechou apressadamente o livro que lia e gaguejou um “Bom dia”. Jane inquiriu Mark sobre autores clássicos. Ele, atabalhoadamente, entregou-lhe quatro diferentes livros e disse-lhe: “Leve, leve! Já os li e são dos livros da minha vida”. Impressionada e intimidada, Jane agradeceu timidamente e saiu.

Jane viria mais tarde a viver com Mark durante quase quatro anos. Mark encontrara um novo rumo e escrevia agora para mais outra pessoa. O seu mundo crescera, e com isso, crescera também, a sua imaginação literária. Escrevia agora a um ritmo alucinante. Graças a Jane, os seus manuscritos começaram a circular no meio intelectual de Nekorb City. Quando começava a ser aclamado por algumas vozes, Mark morreu. As misturas explosivas de estupefacientes, anti-depressivos e álcool haviam surtido – finalmente – o efeito desejado.

Jane suicidar-se-ia dias depois. Uma dose de cicuta ser-lhe-ia fatal. O amor também.


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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #36

VADcarrinho e torne-se um activista anti-capitalismo a sério!
Vamos organizar uma manifestação anti-capitalismo. Uma manifestação pacífica, sem cortar estradas ou ameaçar alguém. Combinamos um dia e uma hora, de preferência durante o fim-de-semana. Dirigimo-nos à grande superfície mais próxima e pegamos num carrinho de hipermercado. Em fila indiana, dirigimo-nos à secção da fruta e legumes. Cada um pega num fruto ou legume pequeno (um morango, uma cereja, etc.). De seguida, seguimos para as caixas, tentando ocupar todas as caixas, excepto as caixas rápidas.

Estes cinco minutos de activismo, perfeitamente legal, faria com que o capitalismo estagnasse durante alguns minutos. Estes minutos seriam os minutos da liberdade em relação às cosias sem as quais não conseguimos viver. Esta situação sensibilizaria ainda as pessoas que, sem estarem à espera, veriam o seu ritual de compras alterado.

É quando alteramos os nossos rituais que evoluímos. O que proponho é que essa evolução se processe em conjunto, para um mundo mais global e solidário.
Pensem nisso e convençam os vossos amigos. O meu e-mail está à disposição.


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posts do antigamente #35

.38
Tom desconhece o significado de comportamento em sociedade. Nunca se preocupou muito com isso, aliás. A agenda do último terço da sua vida tinha sido: manhãs a dormir, as tardes no sofá e as noites a fumar, beber e ouvir música. Nos intervalos dos talkshows da tarde aproveitava para ir até à mercearia duas portas abaixo da sua, cumprimentava a dona Ann, pegava no saco verde que ela lhe preparava todos os dias, pagava e voltava a casa. Na cozinha, abria o saco, tirava a garrafa de whisky e enchia o cantil. Depois, aquecia o que a dona Ann tinha cozinhado para o almoço e voltava para a sala. De vez em quando lia qualquer coisa e escrevia mais uma linha ou outra do romance que estava a tentar terminar há quase dez anos. Mas por cada linha que escrevia, riscava duas e o caixote dos papéis estava sempre cheio. E porque nada lhe corria bem, voltava à cozinha e enchia de novo o cantil. Aproveitava a ocasião para encher também um copo que bebia de um só trago. Acendia um cigarro e levava a mão esquerda ao bolso das calças. Escolhia um cd e começava a andar de um lado para o outro. Entre as passas no cigarro, despenteava-se e coçava o pescoço e queixo. E ia escrevendo assim, cada bocado de estória ao sabor de uma voz e estilo diferente. E a estória, essa, não existia para além da imaginação de Tom. E as linhas que tinha escrito diziam sempre o mesmo, em línguas de sofrimento diferentes: 'choro-te; amo-te'.


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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #34

.75
porque marcámos encontro num dia sem chuva, acendi cigarros que se apagavam logo - molhados -, enquanto esperava que chegasse o dia e a hora combinadas. com medo de que o bater do meu coração abrandasse por te sentir sufocante, insisti para que o nosso encontro fosse em mim, onde chove quase sempre. o meu coração esqueceu-se de mim durante todo esse tempo e só parou de chover em mim quando me beijaste pela primeira vez. porque na verdade, esperava que fosse assim e era assim que sempre tinha sonhado. e porque nunca mais choveu em mim, desde esse dia. e porque oxalá o meu coração abrande, que ele bate cada vez mais rápido e todo o meu corpo pede que o sufoques.


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posts do antigamente #33

.dois.
porque escrevo para ti, não consigo escrever nada sem ti.

e a caneta descansa sobre o papel amarelo,
como quem adormece no sonho de um dia voltar em grande.

mas sempre que espreita a folha,
como se olhasse com o olho entreaberto,
vê apenas marcas e nem uma letra.

e se me perguntarem se sinto tudo o que digo e escrevo, direi que não.
desde que a tinta da caneta secou, nem mais uma palavra de amor, ódio ou indiferença foi por mim escrita.


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domingo, 1 de fevereiro de 2009

posts do antigamente #32

ponto final, de exclamação ou ponto e vírgula?
Perdeu-se num caminho que a certo ponto tem uma bifurcação e nunca mais voltou. Até logo e um bagaço e um percurso de ebriedades. Perdido em si mesmo nunca encontrou forma de regressar, porque entre as simetrias do carreiro, optava sempre pelo lado errado. Nunca teve muita sorte, o pobre rapaz. Um dia lembrou-se que podia ter deixado latas de cerveja no chão, para saber por onde devia regressar. No mesmo instante esqueceu essa ideia; com a falta de sorte que tinha, apareceria, de certeza, algum coleccionador de latas de cerveja barata.


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posts do antigamente #31

.53
Dá-me a tua mão e foge comigo. Deixa a outra mão livre para segurar todas as flores bonitas que eu te oferecer durante a nossa viagem. Quero mostrar-te o que quero dizer quando digo que tu és a mais bela de todas as coisas.


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