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sábado, 31 de janeiro de 2009

posts do antigamente #30

como se voasses e perdesses a vez
Vês? Porque voas e te perdes nos teus sonhos, desperdiças bocadinhos de ti. E cada bocadinho de ti que sou eu, aqueles bocadinhos que guardas no bolso dos cigarros e vão caindo ao longo da tua viagem, são sementes de mim que queria plantadas no teu coração. E eu cresço rápido e em qualquer lugar. Sou danado e, como uma erva daninha, vou-me alimentado dos sonhos de todos os que me cuidam. Mas contigo é diferente, amor. Sabes, porque já te disse, que o meu sonho és tu e que eu só quero um espacinho naquele sonho teu que é de nós. Porque contigo eu lembro-me que é Primavera e desejo - e nunca desejei assim - transformar-me para combinar com o teu sorriso pétala-orvalho, flor.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #29

.89
caíste aqui ao pé e nem te vi, porque te procurava nas nuvens; buscas frustrantes em que só encontrava dragões. cheguei a pensar até que já não moravas nelas e todos os dias desistia mais um bocadinho. afinal eram só aquelas páginas das estórias infantis que nos fazem temer o pior: que a estória que estamos a ler seja daquelas em que o final não é feliz só para ir contra os canônes das estórias infantis e assim passar a ser uma estória infantil avant-garde. descobri, enfim, que a poção para o feitiço era rasgar meia dúzia de livros de alguns autores que eu cá sei, pô-los no lixo e cobri-los muito bem para que ninguém se lembrasse de ir lá espreitar. agora descubro que isto das estorinhas não é verdade e que a única coisa que consegui foi perder o meu tempo com o que acabo de te contar. sinto-me adulto à força e não sei se me consigo habituar, wendy.


escrito por joão martinho | | comentar




sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

friday night live #4

ou bird #2.

esta semana deixo-vos a primeira do novo andrew bird. "álbum do ano, álbum do ano!", apetece gritar. e digam que é cedo, que é precipitado, que é o que quiserem que seja, para mim é o álbum perfeito e quem não se sentir bem que ouça trinta vezes seguidas. e se ao fim das trinta vezes ainda não for álbum da vossa vida, não sei que vos faça.

um dia destes escrevo-o melhor, esta semana ele escreve-se por si. no lugar do costume, ali no canto superior direito.



escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #28

.50
senta-te no chão e conta os sonhos que por ti passam se te olhar. diz-me quais são aqueles passam mais rápido que um leve aperto no coração e os que pairam à tua volta, como se te namorassem e depois fogem, sem qualquer explicação. procura aqueles em que te sorrio e agarra-os; não os deixes fugir. tira dos bolsos as palavras que guardavas para mim, e espalha-as por todos os outros sonhos; eu cá os espero. e enquanto não chegas, eu dobro, bem dobradinha, cada palavra. e guardo, uma a uma, juntinho ao meu coração, só para te sentir mais perto. e quando tu chegares, menina dos sonhos, esvaziaremos os teus bolsos e construiremos, juntos, o nosso sonho a dois.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #27

.60
A menina que lia poemas com os cotovelos descansados sobre a secretária - segurando o livro com a mão direita e encaracolando o cabelo com a esquerda -, e que gritava cada uma das terceiras palavras de cada verso - como se elas, juntas, fizessem algum sentido -, escreveu gritando: manhã acordado, nada. pelo vento caminho, a pensar por que razão o caminho que sempre piso, piso sempre sozinho.


escrito por joão martinho | | comentar




quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

posts do antigamente #26

Contava-se nos bancos de jardim, que havia um rapaz que ganhava sempre ao pião. No havia ninguém que ficasse com o pião intacto, depois de se cruzar com o pequeno José. Ele era filho de marceneiro; o senhor Estevão, o maior marceneiro das terras abençoadas de sua majestade, o príncipe daqui e d'além mar.

E desenganem-se aqueles que pensam que José vivia do trabalho de seu pai, da técnica apurada da aerodinâmica; das melhores madeiras do reino. José construía os seus próprios piões, com o que aprendera desde os quatro anos, altura em que começou a ajudar o pai na oficina.

Estevão, com nove anos apercebeu-se de que os piões que todos os miúdos compravam por vezes a meio tostão - nessa altura também haviam saldos; ninguém jogava ao pião nos dias de inverno rigoroso -, eram feitos de eucalipto; pinheiro ou carvalho; dependendo das posses de cada um - os mais baratos eram os de eucalipto. Um dia, chegaram à oficina uns senhores que falavam esquisito, carregados com uma madeira escura. Ouviu o pai chamar-lhe "pau preto" e "pau do brasil". Quando lhe tocou, sentiu que havia encontrado a fórmula do pião perfeito. O pião negro, já se sabe, varreu os outros piões dos jardins da vila em pouco tempo. Houve um até que se fez em dois, depois de o pião de José lhe ter tocado. Mas existe um ditado que diz "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura". E foi isso que aconteceu.

José tinha um segredo. Quando construiu o seu pião, abriu-o ao meio, fez dois buracos com a forma de meia esfera, e colocou uma pequena esfera de chumbo. A desculpa para o pião ser mais pesado que os demais residia na madeira. José aproveitava-se da ingenuidade dos seus pares, para lhes contar como foram precisos todos os homens feitos da sua família para pegar na madeira e a transportar para a oficina de seu pai. Por vezes dizia também que ainda fora precisa a sua ajuda. Era uma boa maneira de impressionar as meninas.

Uma vez porém, ao atirar o pião, ele bateu com o bico na pedra, a cola de madeira cedeu, o pião dividiu-se em dois e a esfera de chumbo rolou durante uns segundos pelo chão. Nunca mais ninguém soube de José. Ele correu a fugir da vergonha que rodopiava sozinha no chão. Há quem diga que fugiu para o reino vizinho e aí se instalou como marceneiro. Mas nunca teve grande sucesso; julgavam-no muito novo. Acabou por morrer cedo, sozinho e com um bocado de chumbo no coração. Entraram na sua oficina para o roubar, mas como nada tinha, acabou por ganhar um buraco no peito e o adormecer do coração.


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posts do antigamente #25

.15
eu gostava de viver num mundo em que não existissem carros com tejadilho nem guarda-chuvas. gostava que estivesse sempre a chover. gostava que as casas tivessem todas elas fachadas do séc. XIX e as ruas fossem estreitas. gostava que não existissem chaminés nem fumo. as janelas seriam todas brancas e seriam mesmo muitas janelas. gostava que existissem grandes praças e os únicos transportes públicos seriam eléctricos. plátanos. sim plátanos era uma boa hipótese. mas gostava mais que existissem jardins com árvores diferentes. chamar-se-iam "jardim dos plátanos", "jardim dos carvalhos", etc. os estabelecimentos comerciais adoptariam o nome das praças e jardins. e os restaurantes teriam especialidades diferentes, conforme a praça onde estivessem. e todos teriam pelo menos uma especialidade de bacalhau.


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

posts do antigamente #24

num caderno preto, uma mancha de escuridão
A alergia que tenho a magia inconsequente não é mais que algo que me esqueci de te contar sobre uma coisa que não gosto de recordar. Sim, egoísmo de tamanho latifundiário, vê lá bem. Acaba talvez entre hoje e amanhã e levanta-se quando o sol já não se vê. As sombras que o cobrem são tão falsas como a luz que o ilumina e isso é uma coisa que não vamos poder resolver, nem esconder, nem nada que se ache para lá do mar; morta que está a esperança de uma colher de felicidade misturada com o leite. Sim, acabou o que havia no frasco e esqueci-me de comprar mais. Há quem acredite que a felicidade não se compra e por isso rouba no supermercados, mas tenho medo que as máquinas apitem quando eu passar e me tirem a felicidade e me roubem a oportunidade de comprar a felicidade que outros roubam sem punição. Depois há pessoas que vêm falar de justiça e paz para a televisão enquanto comem as letras do teleponto que todos pagamos; nós os que compramos a felicidade dos outros que preferem roubar e ficar com o dinheiro para comprar futilidades como dias de pipocas sem sal.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #23

.34
ruas sujas, sim. carros que não param nos semáforos e rasgam poças de água a alta velocidade; pessoas encharcadas e gritos emudecidos de raiva. chuva que não surpreende porque é constante. vidas atrasadas porque os passeios são estreitos de mais. guarda-chuvas partidos nos caixotes e no chão; estórias de amor e romances de corrimão. porque há quem procure a solidão num banco de jardim molhado, porque há quem procure a moeda de troca na calçada, porque há quem viva como quem sobe e desce uma escada. e no fim de contas, o dia não chega e a sorte não muda e o que sobra, sabe sempre a pouco. e o dia chega ao fim e a sensação de que foi apenas mais um dia normal adormece-nos, ao som da discussão do casal que vive no apartamento de cima.


escrito por joão martinho | | comentar




terça-feira, 27 de janeiro de 2009

posts do antigamente #22

não fui eu, foi o barnabé
bem, passei só para dizer olá e isso. o tempo está bom e dá para ir lá para fora fazer esqui. amanhã deve nevar muito. vou fazer bonecos de neve e jogar às cartas em frente à lareira com o barnabé, o meu novo amigo imaginário. barnabé é um nome giro, fui eu que o escolhi. rima com giroflé. o barnabé às vezes faz batota e é chato, porque eu não gosto de perder, mas ele é matreiro. o barnabé é fixe e faz-me companhia e ajuda-me a fazer os trabalhos de casa. às vezes engana-se a fazer as contas e a professora não gosta, mas a culpa não é minha. o barnabé é que não sabe fazer contas. o barnabé não fala português fala barnabês, a língua que se fala no país dos barnabés, os meninos iguais a ele. eu sei falar barnabês. uma vez escrevi uma carta para o barnabé e mostrei ao papá. ele disse que eu devia ir dormir porque já era muito tarde e eu estava cansado. eu disse que o barnabé podia ficar acordado até tarde e só tinha mais dois meses e meio que eu, que não era justo. o meu papá às vezes não percebe que as horas não acabam, que os dias são muitos. diz que a vida são dois dias, e que um já passou. quando ele começa a falar assim muito, por trás do jornal, eu vou ter com a mamã, que está sempre a fazer sopa. o que vale é que ela me dá muita sopa a dizer que é para o barnabé, assim como menos. não gosto de sopa. só gosto da que tem letrinhas, mas o meu pai não gosta porque diz que eu não devia brincar com a comida. eu gostava de ser como o barnabé, giroflá flé flé.


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posts do antigamente #21

.58
Uma vez disseram-me que dantes havia pessoas que pensavam que o mundo era quadrado. Achavam que se alguém rumasse em direcção ao horizonte, acabaria por cair sabe-se lá bem onde. Com o passar dos anos apercebi-me que o povo é, afinal, bastante inteligente e sabe separar o trigo do joio. De facto, quem pensa assim só pode ser uma besta quadrada. Quem tinha razão era a pequena Mafalda - a do Quino -, quando dizia que o mundo é uma sopa. Este mundo cheira mal e está povoado de couves. A única salvação é nadar até à borda do prato, onde esperamos que tudo arrefeça.


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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

posts do antigamente #20

.77
Olha o malabarista e o trapezista! O trapezista sorri, equilibrado nas palavras que o malabarista tenta não desequilibrar.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #19

.67
dar-te as mãos sabe a outono e um beijo teu sabe a primavera. acabo o inverno com a certeza de que és o meu verão; o verão de que pensava não gostar.


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domingo, 25 de janeiro de 2009

3.

bailarina,
as ondas dos teus braços como vento nos ramos na graciosidade do voo de uma folha de outono; a sombra perfumada que se desenha no rasto dos teus passos; o meu coração numa valsa à tua espera.

bailarina,
o sonho de caixas de música, de violinos e pianos - de orquestras inteiras; o sonho da musicalidade das coisas à chuva, do lado de cá da janela; o sonho de dias inteiros de deslumbramentos ritmados pelo teu corpo em bicos de pés.


escrito por joão martinho | | comentar




posts do antigamente #18

Cadernos de Adam Leigh
Brenton, Maio de 1943

Esqueci-me do dia e da noite. Esqueci-me de dormir – outra vez.

Saí há duas semanas do hospital, segundo as minhas contas. Disseram-me que lá estive quatro meses. Quatro meses a sarar as feridas de ideais vencidos. Não me lembro bem, mas julgo que estava numa manifestação contra o regime.

Lembro-me vagamente do rosto de Joseph, o nosso camarada; o nosso líder; a nossa voz. Recordo-me perfeitamente, apesar disso, da forma como foi silenciado pelas armas do inimigo – cobardemente mais fortes que as nossas, humildes ideais. Nessa manhã de Inverno, a voz dos que a não têm, calou-se – mas o seu sangue derreteu toda a neve em seu redor. De pouco mais me lembro, apenas da forma como fomos barbaramente agredidos – agressões essas que me levaram ao hospital.

Costumava ser operário, operário têxtil; trabalhava dezasseis horas diárias. Uma vez – incitado por um camarada – cheguei mesmo a liderar uma greve de trabalhadores.

Não deu em nada. Por minha causa, os meus camaradas começaram a ser controlados mais de perto pelos vigilantes, que nos agrediam sempre que esboçávamos algum sinal de cansaço. Eu, não sei porquê, fui promovido. Sentindo-se traídos, os camaradas, deixaram de me falar; eu, deixei de me acreditar. Ainda assim, o comité central do partido sempre me respeitou e Joseph chegou mesmo a elogiar o meu trabalho em prol do proletariado, apontando-me como um modelo a seguir. O Joseph, o camarada Joseph, que morreu para dar uma vida melhor aos seus.

Desde que voltei do hospital que não tenho emprego – assim o exigiu o governo, que me dá uma pensão mensal. Ouvi falar disto nas reuniões do partido. Ao que parece, isolam todos os possíveis revolucionários, julgando que assim, lhes roubam os ideais.

Vou-me deitar. Amanhã mesmo, procurarei em todos os olhares, o brilho da indignação.

Honrarei, então, o camarada Joseph, acendendo o rastilho da Revolução.



Brenton, Outubro de 1943

Nunca mais tive coragem de escrever e esta será a última vez que o faço.
Ao longo de todo o Verão viajei por todo o país, organizando um exército de pensadores crentes na liberdade individual. Ao longo de todos estes meses, fiz milhares de pessoas acreditarem no que dizia; organizamos metodicamente uma revolução. E por esses dias acreditei que o povo unido, jamais seria vencido.

Numa linda manhã de Outono – enquanto as folhas mortas das árvores caíam aos nossos pés – eu, e todos os camaradas, cantávamos alegremente a fraternidade, caminhando em direcção ao Palácio Presidencial. Esperávamos surpreender o nosso inimigo, mas foi ele quem nos surpreendeu, tornando aquele dia, no dia mais sangrento da história da liberdade. Eu sobrevivi, para minha infelicidade. Infelicidade, porque às minhas mãos morreram milhares de utópicos, milhares de sonhadores.

O sangue de Joseph não era o mesmo que o meu; o seu sangue era semente, o meu, tempestade.
Cometi um genocídio ideológico, depois de involuntariamente me ter suicidado. Matei sem saber que não era mais que uma marioneta fascista. Morro agora com raiva, porque não sei já, quais são meus ideais.


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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

eles dizem #2

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte


Alexandre O'Neill


escrito por joão martinho | | comentar




friday night live #3


numa sexta de má notícia, uma homenagem aos recém-finados silver jews, uma das poucas bandas pelas quais perderia momentaneamente o amor ao dinheiro.

queria partilhar convosco a sleeping is the only love, mas como não a encontrei, deixo-vos a i'm getting back into getting back with you. 

mas porque é de última homenagem que falamos e porque dificilmente eles voltarão a esta rubrica, ficam mais alguns mp3 avulsos para quem quiser:

(lookout mountain, lookout sea, 2008)
strange victory, strange defeat
suffering jukebox
san francisco b.c.
my pillow is the threshold
party barge

(tanglewood numbers, 2005)
punks in the beerlight



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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

posts do antigamente #17

.41
é um dia que passa e não se faz notar. foi outro dia assim, mais ou menos igual aos que também por cá têm passado. e ninguém repara; ninguém diz nada. nem o vento, que voa entre as ruas estreitas: diz que vai com pressa. leva consigo o cheiro a sangue e vai para longe. corre para lá de rios, montanhas e prédios altos, à procura de uma janela entreaberta. para entrar naquele quarto em que a luz nunca se apaga. e à chegada, uma alma que não dorme e espera. e desespera. e sonhos escritos espalhados pelo chão, em papéis rasurados, rasgados e amarrotados. e lágrimas que não caem ao chão nem caem do céu; lágrimas que morrem à nascença, de raiva, na palma da mão. riscos na parede e palavras de depressão; gritos esquizofrénicos e temporais a conta-gotas. e, no entanto, foi apenas mais um dia que passou e não se fez notar.


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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

posts do antigamente #16

este blogue é um lugar comum
Uma escada no meio da sala branca. A escada é cinzenta em tem cinco degraus de cada lado; nove degraus ao todo. Há pessoas que sobem e caem; há pessoas que têm medo das alturas; há pessoas que pensam que o branco é o limite. Às vezes a escada encolhe uma perna e descai para um lado; é imparcial. Todos nós sabemos os inconvenientes de subir uma escada que tende para um lado, especialmente se esse lado é, como de costume, o chão. Dir-me-ão: "o chão é sempre o lado em que se apoia a escada!", mas eu respondo que alguém muito embriagado e suficientemente sonhador pode ter fixado a escada ao tecto ou às paredes. Nada disso interessa, porém. A escada é inútil; não nos leva a lado nenhum além daquele a que podemos chegar por nós. Além disso separa-nos do sonho e das cores e da vida. Pela escada morre-se-nos o sonho; da escada acordamos num pesadelo.


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posts do antigamente #15

.22
o relógio derretia e o tempo demorava a passar. os ponteiros pingavam horas e horas desperdiçadas. e as cores da nossa felicidade não eram monocromáticas. e se dalí fosse deus, que espaço haveria para a arte?


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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

posts do antigamente #14

Estória da Carochinha ou Outro Conto Surreal
Conheci a princesa num baile. No último baile do Verão, lá para os lados de além montanhas. A princesa era a mais bela de todo o baile. Pretendentes não lhe faltavam. E eu, muito timidamente, tentava mostrar-lhe que existia. Era de um reino muito, muito distante, disse-me a baronessa Still. Tinha-me apanhado em flagrante, observando os passos delicados da princesa e com um sorriso maroto disse: "Ela é de muito, muito longe, meu filho. Não é para ti, um simples princípe de sapatos rotos. Há muito está prometida aquele copinho de leite, filho do rei Marcelino. Coitada! Mas não é para ti, meu filho, não é para ti". Sorri, como se não tivesse mais nada para dizer. Atravessei o salão para ir comer um pastel de bacalhau. Ao avistar os guardanapos lembrei-me de uma maneira de lhe dizer que a gostava, sem ter de a encarar. Escrevi-lhe um bilhetinho. Romântico mas não lamechas, pelo menos foi o que tentei fazer... Passei disfarçadamente por ela e, sem a olhar, fechei-lhe o guardanapo entre os dedos. Sentei-me no canto oposto ao dela. Olhava-a ansioso - ao lado dela estava o copinho de leite. Comia uma coxinha de frango. Deduzi que no reino dele não existem boas maneiras - no fim, ela olhou para mim e sorriu. Corou também, mas isso só me deu mais ânimo. Caminhei por um dos lados do salão, para não dar nas vistas. Peguei-lhe na mão e convidei-a para fugir. Ela queixou-se do nevoeiro. Eu disse-lhe que o meu cavalo tinha faróis de nevoeiro. Não resultou. Fugiu. Voltou para o salão. Não a segui. Talvez tenha ido para junto do quequezito meia de leite, não sei. Eu? Fui embora, cobardemente, mas fui. Estou à espera que ela me envie o seu mensageiro, quiçá, para dizer que me ama. Esperemos então.


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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

posts do antigamente #13

a menina que devora eça no banco frio da estação
Senta-se, murmurando um olá quase imperceptível. E, como se não esperasse qualquer resposta, abre um livro de capa dura azul e começa folhear as folhas branquíssimas de idade.

Foi assim que a conheceu, apesar de nunca a ter conhecido. Ela sentou-se e enlevou-se, como quem foge do frio sem dizer que sim ou que esperar Godot afinal cansa.

Sim, o silêncio; ou não fosse quase de madrugada de um qualquer dia em que ninguém canta ou grita. Só o barulho dos comboios que seguem indiferentes; o barulho das páginas sorvidas de um só fôlego e o do bater do coração do menino que a olha, com as mãos atadas ao coração.

E ninguém sabe ou sonha, e ninguém espera nem comenta; porque ninguém ouviu jamais tamanho sussuro de magia e euforia - sempre contida -, como quem guarda um segredo como se guardasse o coração.

Se conseguisse, elogiar-lhe-ia os lábios cor de cereja e dir-lhe-ia como ficam bonitos enquanto lêem Eça para dentro. Depois, concerteza, coraria muito e fugiria, mas o coração bateria de forma muito diferente, assim como se esperasse que ela corresse atrás dele e lhe citasse Eça ao ouvido.

E não seria por falta de tempo, oportunidades ou suspiros do vento, que lhe oferecia - a cada brisa -, um leve traço de perfume da menina que lê com olhos redondos e castanhos. O comboio que esperavam não chegaria nunca, mas o bilhete rasgado que sobrou no chão, mesmo ao lado do lugar da menina que ainda hoje lê Eça, é uma palavra muda de despedida, mas é também uma carta de amor, daquelas que não caem ao chão; daquelas que levitam para sempre a alguns milímetros, como os pés do menino apaixonado, enquanto se despedia sem ela perceber.

Ela nunca a leu e o vento acabou por a fazer voar. Mas foi apenas mais um sonho desfeito, e outro menino que ficou sem par.


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eles dizem #1

O valor do vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo


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domingo, 18 de janeiro de 2009

posts do antigamente #12

.51
sabes quando nos sentámos na relva, naquelas manhãs de primavera, em que o sol nos dá a falsa impressão de estar calor, enquanto as palmas das nossas mãos e as pontas dos dedos começam a congelar? sim, falo daqueles dias em que as cores são as mais perfeitas de todas. o verde da relva e azul do céu; e o reflexo dos dois nos teus olhos, também.

anda comigo, sobe as persianas e corre as cortinas. abre a janela branca de par em par e olha para nós, lá fora. sim, é assim que quero estar contigo e é assim que te quero ver para sempre; é esta a imagem que quero guardar de mim e de ti; é este o quadro que quero pintar de olhos fechados, guiado pelo som da tua voz.

anda comigo, abre o teu coração e sacode a alma. olha-me nos olhos e olha-nos à janela, a olharmo-nos sentados na relva. e diz-me que sim com um ligeiro aceno e sorri ao mesmo tempo que eu. são eles, os nossos sorrisos, que ao formar um só, responderão a essa dúvida que trazes no olhar. e são eles, o sussurro que te diz ao ouvido: 'não somos diferentes o suficiente como não somos iguais a mais; somos apenas o reflexo um do outro'.


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sábado, 17 de janeiro de 2009

wilco #2

há alguns dias que dizia a toda a gente que quisesse ouvir-me que os wilco vinham cá para dois concertos. como nunca fui bom a adivinhar coisas, acreditei mesmo que fosse verdade e o universo lá deve ter entendido que era mesmo isso que eu queria. e que bela prenda, obrigado!

no primeiro ano de re-theatro circo passou por cá muita coisa boa que eu não vi por estar longe; muita coisa boa e relativamente barata, já agora. depois disso, a programação ficou cada vez mais fraquinha e até pareceu estagnar nos últimos tempos. o único concerto que vi na renovada sala foi, aliás, coldfinger no aniversário da rum, algo de que não me orgulho nada.

mas adiante: depois de anunciado o re-re-re-antony - que por sinal lança na próxima segunda-feira o primeiro álbum audível -, é agora a vez dos enormes wilco. é só em maio, bem sei, mas vale a pena ir já pensando nisso, já que o bilhete custa quarenta euros - há duas opções mais baratas, mas com visibilidade reduzida.

o theatro parece voltar a acordar, mas acorda cada vez mais caro. e com os conhecidos problemas financeiros da casa parece estranho a arrogância de cobrar percentagem "pelo espaço"; o theatro é de todos, de todos os que podem.


escrito por joão martinho | | comentar




sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

friday night live #2

...ou wilco #1

no dia em que foram anunciadas as datas para a estreia dos wilco em palcos portugueses, deixo-vos a música que abre o último álbum da banda, sky blue sky.

podendo, é ir vê-los, apesar dos preços.

e já sabem, ali em cima, no "mais" e depois "play".



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posts do antigamente #10

.35
diz-me que a flor que trazes nas mãos é o nosso amor e que ela já ganhou raízes no teu coração.


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quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

posts do antigamente #9

mapas
Sempre gostei muito do mundo inteiro. Pode ter sido por causa do candeeiro-globo que adorava fazer girar, do mapa muito velhinho que o meu pai encontrou e recuperou, ou simplesmente das cores dos países. Sempre gostei muito da cor de África, retalhada a rosas e amarelos, verdes e azuis e nunca gostei muito da Ásia, porque era quase toda de uma cor e ia desde depois da Alemanha até aquele estreito que quase toca o Alaska. Portugal quase não se via e Braga muito menos, mas perto do Porto havia um pontinho que eu desenhei a caneta preta e sempre quis muito que fosse Braga. Agora que penso nisso, as probabilidades de ter acertado na localização são bastante altas, já que num Portugal tão pequenito, o mais provável é que o pontinho representasse todo o distrito de Braga.

Sempre gostei muito de mapas. Pode ter sido por causa do pontinho, da forma dos países e das cidades, ou simplesmente das cores. Deve ser isso, as cores. Sempre gostei de cores e as cores dos mapas ajudam a dar cor ao mundo, negro de não o conhecer.

Quando estive em Dusseldorf pendurei o mapa da cidade na porta do quarto e nele desenhava quase diariamente o meu trajecto, preocupado em conhecer sem me perder. Aventurava-me, mas não para muito longe do rio, para depois descer até ao Reno e voltar a casa, no centro histórico à beira Reno. Acabei por conhecer muito pouco da cidade porque sempre tive medo de me perder numa cidade tão grande e em que as palavras que lia no caminho tão pouco me diziam. Aprendi algumas, mas nunca consegui articular mais de três ou quatro. Ficou, no entanto, apontada a vontade de aprender alemão. A cidade que conheci foi pouco mais que o zoom que os senhores do turismo de Dusselforf fizeram do centro da cidade. Ainda fiz umas viagens de S-Bahn até ao Aeroporto, que era quase de um lado ao outro. Mas conhecer coisas de comboio é uma porcaria, porque o que queres ver já passou. Depois conheci um bocadinho de Leverkusen e Colónia, mas o Reno puxava-me sempre para Dusseldorf. Ainda assim, dois meses na Alemanha Ocidental permitiram-me substituir o a amarelo do velho mapa. Pintei-a de azul sujo do Reno, de vermelho cor das paredes e cinzento escuro dos tectos das casas; pintei-a com muito verde e castanho das árvores e das sombras delas, dos parques que não acabavam. Ainda pensei fazer isso naquele mapa velhinho, mas num pontinho não cabem todas as cores.

Estes últimos meses têm sido muito bons, no que à pintura diz respeito. Conheci as cores do céu e andei nas nuvens. Descobri que a França vista de cima é como um gigantesco campo agrícola; e quem diz França diz Bélgica, também. Tenho a ideia que passei no Luxemburgo, também, mas aquilo é tão pequenito que não sei se o que eu pensava que era o Luxemburgo era mesmo o Luxemburgo ou a Bélgica ou a Alemanha. Mas o que eu gostei mesmo foi de ver o Gerês do céu; imagem mais bonita. Ainda assim, depois de ter voado meia dúzia de vezes, acho que não é assim tão especial como se diz. É, isso sim, muito confortável e rápido, apesar de os aeroportos serem sempre demasiado longe da cidade.

Quando voltar a Braga quero pintar o mapa velhinho. Quem sabe, quando eu for velhinho, também, o mapa ainda mais velhinho não tenha já outras cores novas: as cores que os meus olhos viram verdadeiras.


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posts do antigamente #8

.44
Um salto da janela. Um salto para o chão, ao mesmo tempo que eu desço pelo corrimão. E as miúdas soltam gargalhadas abafadas e envergonhadas. E eu tiro o chapéu e amarroto-o com as mãos, por causa do nervoso miudinho. E tu só sorris, com estilo, como aquele tipo do anúncio de óculos de sol. E elas são três e outro ainda vem lá atrás, a descer as escadas. E ao fim de três minutos sem uma palavra, elas continuam a rir baixinho e acho que a das sardas está a olhar para mim. A loira piscou-te o olho e outro ainda desce as escadas. Olha a da fita que se sentou, já. E o outro que nunca mais chega. E é com um guarda-chuva que lhe puxo os suspensórios e não o deixo descer. E é o lenço bem dobrado que dou à menina da fita, para limpar os olhos e parar de chorar. E é a ela que lhe dou a mão e é a ela a quem sorrio. E tu; já ninguém te vê. Fugiste com as duas, enquanto o outro continua a descer as escadas.


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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

bird #1

so they took me to the hospital
they put my body through a scan
what they saw there would impress them all
for inside me grows a man
who speaks with perfect diction
as he orders my eviction
as he acts with more conviction
than I

andrew bird - masterswarm


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posts do antigamente #7

.31
Descobrir que me sonhas e que me dizes coisas bonitas ao ouvido enquanto durmo. E sim, descobrir-te. E saber que o teu sonho é o meu e que os dois são um só.

Murmurar-te palavras sem sentido e olhar-te os lábios, à distância de um suspiro.

Porque sim, deixas-me sem saber o que dizer e o que escrever. E porque me obrigo a apagar mais do que construo. E porque não sei o que é que isso quer dizer. E porque 'sim'.


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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

as outras palavras

porque nem todos saberão, os astericos das hiperligações que encontram no "mais" do canto superior direito indicam os outros blogues onde escrevo regularmente.

o sinecura é um blogue que escrevo em conjunto com mais oito pessoas e é o gostar de fazer nada que nos une. um blogue sério e quase reaça, não fosse o rui passos rocha o maior entusiasta.

o avenida central é o maior blogue regional português e nele escrevo uma pequena crónica semanal. é às sextas-feiras e a coluna chama-se avenida ideal.


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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

posts do antigamente #6

Amor em Quadrado
Jacques olhava Marie com olhos de maçã. Maçã verde; azeda. Jacques nunca gostou dela e não ia ser agora que ia mudar. Jacques é um velho reformado da marinha; Marie, a sua empregada doméstica. Jacques tem 73 anos; Marie, 24. Jacques é amargo, arrogante e mesquinho; Marie é inocente, analfabeta e simpática.

Marie tentava seduzir Jacques para depois de se casarem, o matar e fugir com Antoine - o moço dos recados da mercearia da dona Sandrine.

Jacques gostava de Sandrine e queria matar Antoine, porque tinha ciúmes do tempo que ele passava com ela.

Antoine não gostava de Marie, mas mantinham uma relação carnal. Antoine misturava vermute no whisky de Jacques e roubava dinheiro a Sandrine.

Sandrine odiava Antoine, mas ele era seu filho, apesar de ninguém saber. Marie era meia-irmã de Antoine da parte do pai, que ninguém sabia quem era. Sandrine nem sabia que Jacques existia.

Um dia morreram-se-me todos da imaginação.


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posts do antigamente #5

Anita dos Cabelos Dourados
Anita era uma boneca de lã. Vivia no mundo dos sonhos, e lá era feliz. Um dia Anita foi parar às mãos de Mimi. Todos os bonecos tinham este destino um dia – só não sabiam era quando.

Mimi tinha três anos e outras bonecas de eleição. Não seria fácil para Anita ganhar a confiança de Mimi, para se tornar a sua melhor boneca. Anita tinha uns olhos azuis muito grandes – bordados à mão, fios de cabelo dourados, as faces rosadas e um lindo vestido verde com flores e um bolso grande no meio.

É incrivelmente difícil viver no mundo dos meninos de três anos. No infantário, quem tem barbie é Rainha quem tem carrinhos da polícia é Rei. Mimi – com base na sua larga experiência de vida – sabia que Anita não iria ser bem aceite nas reuniões semanais da corte do infantário. Sabia que iam acusar Anita de ser apenas uma plebeia – não era digna de privar com a nobreza, a não ser que fosse para os servir.

Sim, podem achar uma tolice, mas isso é porque não têm três anos. Quando tinham três anos preocupavam-se muito com a escolha da boneca certa, arrepiavam-se só de pensar que a Maria Francisca podia levar uma boneca igual à vossa. Não acreditam porque não se lembram. Mas provavelmente não se lembram de nada, ou de muito pouco, dos vossos três anos.

As reuniões eram todas as quintas, depois da sesta. Fantasiavam chás exóticos com banais pacotes de leite achocolatado, e os bolos eram tratados como biscoitos. – Não, não estou a exagerar. Os meninos aos três anos são os melhores observadores do meio envolvente. É pena esquecerem-se disso ao festejarem o quarto aniversário.

Na primeira quarta-feira, depois de ter Anita, Mimi teve de tomar uma escolha difícil. Apesar de Anita ser a boneca preferida de Mimi, apesar de só a ter há três dias, Mimi não podia levar Anita para as reuniões. Lacrimejando, e afagando os cabelos de Anita, Mimi disse-lhe que teria de escolher outra boneca – que não a podia levar para a reunião – ou as amigas iam gozá-la, ou pior: ignorá-la. Por um momento, Mimi diria que viu Anita a deixar cair uma lágrima.

Ao acordar, Mimi reparou que Anita não se encontrava ao seu lado, onde tinha adormecido. Alarmada, começou a procurar a sua boneca por toda a casa, e encontrou-a no chão da casa de banho – mal pintada de baton da mãe de Mimi. Perante este cenário, Mimi pegou na sua boneca, limpou-lhe a cara e decidiu levá-la para a reunião. Apercebeu-se que estava a ser egoísta. Mimi e Anita eram amigas, e se as outras meninas não quisessem aceitar isso, ela não se importava. Anita surpreendeu toda a gente com a sua cultura. Citou autores como Soapbuble ou Algodão Doce, deixando todos boquiabertos. Mostrou a toda a gente que ser de plástico não é um posto. Provou que a amizade e a imaginação são bem mais úteis, com três anos ou com muitos mais.


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domingo, 11 de janeiro de 2009

posts do antigamente #4

queres-me num outono que dure sempre?
au revoir de um filme francês e uma gabardina com bolsos onde cabem as minhas mãos e as tuas. ao sair de casa levantaria as golas, para que o cheiro do teu cabelo no meu ombro me beijasse o pescoço, enquanto o vento tentava roubar-me o chapéu só para que tivesse frio de me teres cortado o cabelo. braga podia ser castanha ou vermelha e cinzenta e verde do musgo nos muros da igreja junto à nossa casa. podíamos ir ao alentejo de vez em quando, mas bem sabes que o outono faz mais sentido a pintar braga do que pintado de alentejo. podia ser o outono que tu quisesses, desde que eu também soubesse desenhar quando te descobrisse distraída. e se eu soubesse desenhar, queria tanto um outono cliché de pisar folhas secas no fumo branco das castanhas assadas como um outono da cor dos teus lábios e do tamanho dos teus olhos, onde ficaria para sempre, se me dissesses que o nosso outono não acabaria nunca.


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2.

descobriu-lhe a mão sem querer, de olhos quase fechados. a noite fria, o banco frio, a timidez gelada na face; descobriu-lhe a mão sem querer e segurou-a sem descolar os olhos do horizonte desfocado. tremia-lhe o coração só de pensar os lábios dela e, num movimento brusco, puxou-lhe a mão para o colo. desajeitadamente, beijou-a num pequeno instante e pousou-a de novo no colo. segurava-a agora com as duas mãos, como se tentasse espremer delas o desejo de a agarrar com força num abraço.

sumiam-lhe as palavras, mas pesava cada vez mais, como se o beijo que fugia lhe roubasse todas as cores, as vontades, os sonhos; como se o beijo que fugia lhe deixasse apenas o peso de não ter nada, de ser nada, peso morto.

engoliu em seco quando sentiu outra mão abraçar o laço de mãos que tinha no colo. era um dia frio, mas ardeu das mãos até ao coração e foram dois ou três segundos até que o coração ameaçasse rebentar da força de bater. ao sentir a cabeça dela pousar no ombro, beijou-lhe os cabelos e as mãos dela apertaram as dele. olhou-a pela primeira vez depois de entrelaçarem as mãos e era como se os lábios dela o chamassem baixinho; abraçou-a, mas os lábios dela fugiram.

era o frio que o empurrava para a vertigem de um amor urgente e lhe rasgava o coração em finas placas de gelo. era o tempo que não esquecia e o frio que não perdoava.


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sábado, 10 de janeiro de 2009

posts do antigamente #3

.47
antes de mais, e não desfazendo o que vem a seguir, corta-se a cebola às rodelas e espera-se que ela aloure. depois de devidamente alourada, podemos juntar dois dedos de um bom vinho adormecido nas teias de uma aranha que faleceu há muito e deixou de luto a anunciar dinheiro [são as aranhas pretas que anunciam dinheiro? ou será sorte? nunca percebi muito disso. se alguém souber, agradecia que me esclarecesse]. mas esse dinheiro não chega nunca. só muito de longe a longe, uma ou outra moedita de cem paus, o que não compensa, de todo, as duas ou três notas de mil que já perdemos desde que sentimos necessidade de comprarmos as nossas próprias gomas. é por isso que toda a gente devia ter direito a encontrar uma nota de vinte euros, pelo menos uma vez na vida. claro que tinha de gastá-lo em menos de nada, porque é feio guardar o dinheiro dos outros. aliás, isso é um eufemismo para o acto de roubar. e roubar é feio. é o que se aprende na catequese. e porque tem tudo a ver com a ascese ou com a falta dela, o senhor não deve levar a mal se desejarmos uma multiplicação dos bifes de vitela, já que alimentar tanta gente nos dias que correm, não é nada fácil. e a cebola daqui a pouco queima.


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1.

a caminho dos braços dele, repetiu insistentemente "amor", como se tentasse não esquecer; como se procurasse acreditar.


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posts do antigamente #2

.25
E começou a caminhar em círculo, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. Sempre que passava pelo velho, agitava o sino que trazia na mão direita: da primeira vez, uma vez; da segunda, duas; e por aí em diante: por cada vez, tocava mais uma vez. Ao som do sino, dois anjos corriam atrás dele a gritar "aleluia, aleluia!". E por causa das conversas sobre sexo, um era rapaz e outro rapariga; era uma anja, mas nunca lho disseram. Além disso, eram celibatários e tinham uma auréola, o bónus da promoção par do feira nova. Aos dez toques e dez passos, a anja parou. Tinha um encontro às dez e vinte e cinco e ainda queria tomar banho, calçar as all star e perfumar-se. O anjo sentiu ciúmes e escondeu-se atrás do ponteiro das horas. Depois, apanhou boleia do dos minutos e ficou a olhar para o lugar onde está o "um" e sentou-se em cima do "sete". Sempre que passava o ponteiro dos segundos, tinha de se deitar. Do outro lado, o casal saltava. Entretanto, o do sino, sentara-se e estendera uma toalha vermelha no "seis". Descontraído, fazia um piquenique ao som do tic-tac. Em quinze minutos comeu, e em quinze minutos voltou a passar pelo velho e tocou outra vez o sino; desta vez, só uma vez; como no início; mas sem "aleluia, aleluia!". O anjo chorava em silêncio e ouvia The Smiths; a anja ouvia baboseiras pré-fabricadas, ria muito e apaixonava-se.


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sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

friday night live #1

para início das festividades, glory to the world. há festa na aldeia e a cabeça de cartaz é a sueca el perro del mar, autora do meu álbum preferido de 2008. enjoy!

para ouvir, é carregar no "mais" do canto superior direito do blogue e carregar em play.



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posts do antigamente #1

.84
ontem encontrei-o de novo. ou encontrei-o apenas, não sei. sei que me lembrou alguém que não conheço. chovia, e ele encharcado pela agua da chuva, carregava nas mãos uma alma alagada pelas lágrimas que tantas vezes devia ter chorado para dentro. estava muito pálido e não lhe perguntei o nome, mas tenho a ideia de que ele me perguntou o meu. se o virem, digam-lhe que vão da parte do joão. ah, e roubem-lhe a alma, por favor. é que desde que ele me levou a minha, não sei onde guardar as lágrimas que tenho de esconder.


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quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

vadnovo

depois de ano e meio de nada, volto ao tudo a tempo da comemoração do quinto aniversário do vad. porque hoje foi dia de miraculosa neve em braga, deixo-vos outro milagre: o do renascimento do vosso blogue favorito.

até ao dia 22 de fevereiro, dia de aniversário, serão publicados alguns dos melhores posts do vad de antigamente. a programação seguirá, no entanto, como habitual.

obrigado a todos os que pediram o vad ao pai natal ou como desejo para 2009.


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