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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004

talvez não acreditassem no amor que se escreve por aí

acho que tiveram pouco tempo, talvez o tenham desperdiçado por não saberem que terminaria logo. soube-lhes a pouco, disso tenho a certeza, bem lhes vi as rugas de hesitação e o morder de lábios nervoso. ela chorava e afastava-se, ele, de mãos nos bolsos, não pensava se não em escrever-lhe; na cabeça dela, as desculpas eram versos e cartas de amor, palavras que ela não saberia recusar. seriam letras em beijos, palavras em abraços e cada parágrafo uma história de amor que se esqueceram de viver. "isso!", sorria orgulhoso, "hei-de escrever-nos em palavras tão bonitas que ela será incapaz de continuar a fugir".

pensou escrever-lhe o sol no cabelo, o brilho dos olhos, a delicadeza das mãos, o belíssimo corar, os lábios. pensou escrever-lhe os lábios sempre doces, ora em beijos, sorrisos, cicios ou gargalhadas. no caminho até casa contou pelo menos vinte poemas e, deslumbrado, foi escrevendo os versos mais bonitos na mão esquerda, depois nos recibos que tinha na carteira e, quando não tinha mais onde escrever, escreveu no telemóvel. porém, em casa, ao reescrevê-los, notou que já não lhe brilhavam os olhos e o cabelo, que as rugas lhe rasgavam o rosto e as mãos, que os lábios cereja haviam empalidecido.

talvez o amor nos fuja quando o tentamos escrever, quando insistimos em dizê-lo. talvez desconfie das palavras bonitas, das palavras de amor; talvez saiba que as palavras são apenas desculpas ou motivos, que as cartas de amor são ridículas porque o amor não é de escrever. e aqui lembrou-se dos "gosto de ti" de almofada, dos "amor" nos beijos no pescoço, dos "felizes para sempre" nos abraços à volta da barriga; depois lembrou-se do silêncio das noites mãos dadas nos bancos de pedra, do silêncio das tardes espraiadas sobre a relva, do silêncio dos dias espreguiçados na cama. "fomos tão felizes enquanto não o soubemos dizer", escreveu.

ela chorava como se tentasse exorcizar as memórias que aquele adeus repintara tristes. chorou dias inteiros e, com as lágrimas, foram escorrendo também as cores com que fora pintando a história deles na parede do quarto. às camadas, desenhara deles cada suspiro e, à vez, foi encontrando naquela cascata de tinta as manhãs que se espreguiçavam em dias completos, a tarde sob o sol estrelado nas folhas das árvores, a dança dos arrepios nos abraços de mãos frias. talvez, pensou, precisassem de rever todas as recordações e passá-las a limpo; talvez tivesse sido diferente se o passado dela não lhe tremesse os traços de felicidade ou se o tempo não queimasse as cores.

talvez não acreditassem no amor que se escreve por aí. perdiam-se, de olhos fechados, nos sonhos em que fugiam de mãos dadas. ele soprava no rosto dela e perguntava-lhe se sentia o frio gelar-lhe a cara: "chegamos, querida. dizia ali patagónia"; ela abraçava-o com força, embrulhava-se no cachecol dele e dizia-lhe: "tenho tanto frio". arrastava-o pela mão, corria até um sonho de mar, soprava no rosto dele e perguntava-lhe se sabia a maresia: "molhamos só os pés, anda"; ele apertava-lhe a mão com força, puxava-a contra si e sussurrava ansioso: "mas eu não gosto do mar". e de manhã, ainda deitados, escreviam e pintavam em verso o único receio que partilhavam: as manhãs de cama vazia.

não escreviam nem pintavam o amor em que se acredita por aí, talvez não soubessem a que sabe esse amor que todos vão encontrando por aí: as saudades não eram cócegas de borboletas na barriga, eram golpes a rasgar o estômago; os reencontros não eram a urgência nas corridas em câmara lenta, eram o cicio borbulhar do álcool ao queimar as feridas. um dia, quando ela lhe disse que já não acreditava no amor ele, em súbita asfixia vocabular, não soube sequer dizer-lhe adeus. de mãos nos bolsos, afastou-se enquanto mordia nos lábios a certeza de que esta história tinha sido escrita para adormecer nas palavras.


escrito por joão martinho | | comentar




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